Reflexão sobre os desafios de ser homem, nos dias de hoje
Em 1815 os Irmãos Grimm publicaram um conto invulgar sobre a entrada de um rapaz na idade adulta. Um caçador chega a uma cidade à procura de aventura. Falam-lhe de um monstro que vive escondido num lago profundo, algures na floresta. Sem mais demora, o aventureiro penetra no arvoredo e captura a criatura que acaba enjaulada no palácio, ficando a rainha com a única chave que a poderá libertar. É então que entra em cena o filho dos monarcas, um miúdo de oito anos. O monstro, de seu nome João de Ferro, tenta negociar com a criança a sua liberdade... em troca de uma bola dourada. A história não acaba aqui. E serve de mote a esta obra do premiado poeta e tradutor americano Robert Bly. O livro provocou furor quando foi publicado em 1990 e manteve-se teimosamente no top de vendas do New York Times durante mais de um ano. Hoje é uma obra de culto, por ter aberto caminho à apologia da masculinidade profunda e saudável. Ao partir de um conto de fadas, analisado à luz da mitologia, da literatura, do imaginário popular e da psicologia Junguiana, o autor explora a lenta erosão da masculinidade. E justifica-a baseado em dois fatores principais: o fim da "aldeia", com os seus rituais de passagem, e a crescente ausência do pai enquanto figura modelo (é ele quem sustenta e protege a família). Obra ainda hoje polémica, que marcou todo um movimento de reivindicação dos valores e valências tradicionais associados ao homem, provoca e ilumina. A enorme erudição do autor e o seu talento para narrar histórias garantem uma leitura feroz e desafiante. Na essência, o que se pretende é redescobrir esse "eu" escondido na floresta, o ser selvagem, que não teme libertar-se da mãe (ou do pai) para procurar a independência e a autodeterminação.